São José dos Campos
20º / 26º
No decorrer do dia o dia terá com variação de nebulosidade na região.
Brasil
Julho 17, 2017 - 15:35

Misto de sentimentos marca saída dos militares brasileiros do Haiti

Após 13 anos, missão brasileira no Haiti está próxima do fim

Após 13 anos, missão brasileira no Haiti está próxima do fim

Foto: Marcello Casal/Arquivo/Agência Brasil


A pouco mais de três meses para o fim da Missão de Estabilização da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, os últimos 978 militares brasileiros a participar da chamada Operação Minustah (abreviatura do nome da missão, em francês) se preparam para retornar ao Brasil, experimentando um misto de sentimentos e a expectativa de que o povo haitiano conheça tempos melhores.

Segundo a Resolução 2.350/2017, aprovada pelo Conselho Segurança das Nações Unidas em abril deste ano, todo o efetivo militar empenhado na missão deve deixar o país gradualmente, até 15 de outubro, quando a operação será oficialmente encerrada. A partir desta data, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituirá sua Missão de Apoio à Justiça (Minujusth) naquele que é considerado o país mais pobre das Américas e um dos mais carentes do mundo.

A desmobilização do efetivo teve início no último dia 26. As ações, no entanto, continuam. O Batalhão de Infantaria brasileiro, por exemplo, vem ajudando no mapeamento dos locais mais suscetíveis a desastres naturais. O conhecimento prévio destes locais é extremamente importante caso o país caribenho volte a ser atingido, por exemplo, por um furacão, fenômeno comum entre os meses de junho e novembro. Segundo dados da ONU, o Haiti é o país com o maior número de vítimas fatais por catástrofes naturais.Força de Paz no Haiti

Em 15 de junho, a Minustah transferiu para a Polícia Nacional haitiana o policiamento de Cité Soleil, comuna do coração da capital haitiana, Porto Príncipe, que, até 2006, era dominada por gangues que ameaçavam os moradores, trabalhadores e qualquer pessoa que visitasse o local. A tropa brasileira continua ocupando a base militar instalada no local e realizando patrulhas esporádicas, mas após ter sido considerada uma das áreas mais violentas do mundo, hoje, Cité Soleil é tida como local relativamente seguro.

De acordo com o Ministério da Defesa, a previsão é encerrar as operações de manutenção da lei e da ordem até o dia 1º de setembro e trazer de volta à casa 90% dos militares brasileitos até 15 de setembro. Os soldados e oficiais que permanecerem no país após esta data serão encarregados de cuidar exclusivamente das últimas medidas administrativas necessárias à repatriação, até 15 de outubro, de todo o material e equipamento brasileiro.

Segundo o comandante de esquadrão do Pelotão de Fuzileiros, cabo Walace Leite Dantas, um misto de sentimentos cresce à medida que se aproxima a data do encerramento da missão. “O sentimento de servir no Haiti, especialmente neste contingente responsável por encerrar a presença brasileira junto a Minustah, mistura felicidade com a responsabilidade de não jogar fora tudo o que foi feito pelos que nos antecederam”, disse Dantas a Agência Brasil. “Não vou dizer que a expectativa de retornar ao Brasil aumenta à medida que se aproxima a data final porque a vontade de ficar e continuar ajudando quem precisa é maior”, completou o cabo.

Desde 2004, quando foi escolhido para liderar a missão de estabilização formada por tropas de 16 países, o Brasil enviou ao país cerca de 37 mil militares, segundo o Ministério da Defesa. O maior contingente é o do Exército, que mobilizou 30.359 homens e mulheres. A Marinha enviou 6.299 militares e a Aeronáutica, 350. O efetivo que se encontra no Haiti desde maio é o 26º e último contingente brasileiro deslocado com a missão de ajudar a reestabelecer a segurança e a normalidade institucional após a turbulência política que culminou com episódios de violência durante protestos e manifestações políticas e com a renúncia do então presidente Jean Bertrand Aristide, eleito em 2000.

Para o comandante do esquadrão de fuzileiros, capitão Daniel Nicolini de Oliveira, a participação brasileira no Haiti deixa o sentimento de dever cumprido, mas também a apreensão pela responsabilidade de que os resultados positivos da missão sejam mantidos.

“Hoje, ao andarmos pelo Haiti, constatamos o quanto a Minustah ajudou o país. A expectativa de retornar ao Brasil e rever a todos os que nos apoiaram e que torcem por nós é grande. Assim como é grande a responsabilidade de desmobilizarmos o batalhão e repatriar todo o material brasileiro, o que demanda uma logística muito grande”, comentou o capitão, convencido de que o efetivo brasileiro “somou positivamente para com a missão da ONU”.

Oliveira diz que guardará a lembrança de um país receptivo, cujo povo vem se esforçando para melhorar a cada dia. “Também guardarei a lembrança de como é gratificante poder ajudar o próximo; do reconhecimento que temos quando andamos nas ruas e de como crescemos pessoal e profissionalmente travando contato com uma outra cultura e com problemas diversos. Esta foi uma experiência ímpar para nós, soldados da paz”, acrescentou o capitão.

Quando recebeu o convite do Conselho de Segurança da ONU para liderar a Minustah, o governo brasileiro enxergou a oportunidade de, além de ajudar o Haiti, projetar a imagem do Brasil internacionalmente, o que coincidiu com o projeto estratégico de tentar consolidar a liderança regional do país. Ao longo dos anos, principalmente durante os primeiros tempos, não faltaram críticas à iniciativa. Como as feitas por entidades que classificavam a presença militar estrangeira como uma ação intervencionista, que desmobilizava da capacidade do Haiti encontrar soluções democráticas para seus próprios problemas políticos. Em 2006, o então ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, enfatizou, durante reunião com representantes de 16 países e de 11 organizações internacionais, que a ação internacional deveria focar mais no combate à pobreza e no fortalecimento da capacidade do Estado haitiano de prestar serviços à população, com “bulldozers [escavadeiras] e betoneiras ocupando o lugar dos carros de combate”.

Em janeiro de 2010, quando o Haiti foi devastado por um terremoto de 7 graus na escala Richter, a situação humanitária se agravou e a ajuda internacional se tornou ainda mais necessária. Mais de 220 mil pessoas morreram, entre elas a médica brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, e o diplomata brasileiro Luiz Carlos da Costa, vice-chefe da missão de paz da ONU. Cerca de 300 mil pessoas ficaram feridas e mais de 1,5 milhão de haitianos ficaram desabrigados. Em meio à destruição, uma epidemia de cólera se alastrou entre a população, provocando uma nova onda de violência que precisou ser contida com o uso da força.

Infelizmente, a tragédia haitiana ainda estava longe do fim. Em outubro de 2016, o país foi atingido pelo Furacão Matthew, que afetou cerca de 2 milhões de pessoas, matando centenas delas. O furacão também destruiu sistemas de água e esgoto recém-construídos, provocando inundações e agravando os problemas de saúde pública. O efetivo da Minustah foi novamente acionado para desobstruir estradas bloqueadas e levar água, comida e medicamentos à população de comunidades isoladas, além de, mais uma vez, ajudar na reconstrução de casas e da infraestrutura afetada.

Tropas brasileiras no Haiti

Em janeiro de 2010, quando o Haiti foi devastado por um terremoto de 7 graus na escala Richter, a situação humanitária se agravou e a ajuda internacional se tornou ainda mais necessáriaArquivo/Agência Brasil

Os brasileiros de “capacetes azuis” (usados pelos militares que integram a missão de paz) também tocaram obras de engenharia importantes para a reconstrução do Haiti. Para se ter uma ideia, entre os 978 militares do atual contingente brasileiro no país, 120 integram a Companhia de Engenharia de Força e Paz. Ao longo dos anos, a companhia participou de inúmeras ações com vista à melhoria da infraestrutura nacional e das condições de vida dos haitianos, como a construção de escolas, orfanatos, hospitais, unidades de polícia e estradas e outras instalações militares, além da perfuração de poços artesianos, regularização de terrenos e remoção de escombros e de entulho.

Já os 850 membros do Batalhão de Infantaria continuam encarregados da missão de manter um ambiente seguro e estável, realizando patrulhas, escoltando comboios, fiscalizando o movimento nas principais estradas e avenidas haitianas e dando a segurança necessárias às demais ações humanitárias.

Por outro lado, ao participar de uma audiência pública na Câmara dos Deputados, no último dia 5, o comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, disse que, embora a participação militar no Haiti seja um caso de sucesso junto a ONU, “talvez o maior caso de êxito em missões de paz”, o Brasil deixou de aproveitar as oportunidades econômicas decorrentes dos esforços empenhados.

“Chegamos [ao Haiti] desavisados e perdemos enormes oportunidades porque pouco conseguimos aportar e criar [em termos de] oportunidades para as empresas brasileiras. Também negligenciamos trazer lideranças haitianas para o Brasil, para se capacitarem”, comentou o comandante ao defender a importância de uma maior integração entre as Forças Armadas, o serviço diplomático brasileiro e a área econômica no tocante a assuntos estratégicos militares.

Segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, de 2004 até o fim de 2016, o Brasil investiu cerca de R$ 2,5 bilhões na Minustah. Cerca de R$ 431,3 milhões foram reembolsados pela ONU.

Publicidade
Publicidade
Publicidade  
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

BRASIL

MUNDO