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Setembro 08, 2017 - 11:20

Mansão 80 faz da 'década perdida' mote para comicidade clownesca

Mansão 80

Mansão 80

Foto: Dani Majzoub/Divulgação

Confira crítica da peça 'Mansão 80', do grupo La Cascata Cia. Cômica, por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite
São José dos Campos

"Mansão 80", do grupo La Cascata Cia. Cômica, é um espetáculo de palhaços que, como tal, apresenta um argumento simples: uma trupe de carregadores, contratada para desocupar uma mansão, se vê às voltas com a assombração de um antigo morador. Nesse meio-tempo, além de esvaziar a casa, caberia aos três membros da equipe limpar a moldura dos quadros pendurados nas paredes e encontrar um misterioso LP (long play) escondido no local.

Daí decorre, como requer a linguagem do palhaço, boa parte da graça do espetáculo, sustentada, quase sempre, na oposição entre a figura dominante do Clown Branco, que procura realizar a missão delegada, e os chamados Augustos, aqueles que, devido à sua estultice, impedem que ela se realize. Dentro desse esquema, dir-se-ia, “clássico”, "Mansão 80" revela, além de competência na realização dos números tradicionais – como o da escada, por exemplo – uma criatividade considerável na criação de gags próprias, algumas se convertendo em verdadeiros achados cômicos.

Contudo, extrapolando a estrutura relativamente fechada da palhaçaria, "Mansão 80" tem como seu grande “trunfo humorístico” a sátira que apresenta à cultura dos anos oitenta, donde se explica o título da obra e a inclusão de um LP como pretexto para a ação. Repleta de referências à “década perdida”, como quadros que retratam figuras simbólicas da época ou canções que são verdadeiros hinos dessa geração, "Mansão 80" realiza algo, em princípio, difícil: entreter completamente um público que não chegou, nem de longe, a vivenciar o período parodiado. Ou seja, um público que não chegou a perder o sono por causa do Freddy Krueger, não dançou ao som de Michael Jackson nas festinhas da escola e também não teve Patrick Swayze como um de seus grandes galãs, para ficar em algumas menções diretas ou indiretas presentes no espetáculo.

Do ponto de vista deste crítico, isso acontece porque tais referências culturais não compõem um quadro à parte dentro da estrutura da obra, mas, ao contrário, se atrelam a ela à guisa de mote no jogo proposto pelos palhaços Sossego, Meio Quilo e a palhaça Olívia. Exemplo dessa consonância entre a citação e o jogo de cena se encontra, especialmente, na parte em que Olívia e Sossego parodiam o filme "Dirty Dancing" (no Brasil, "Ritmo Quente", de 1987), ao som, claro, de "Time of my Life". Mesmo não se conhecendo esse famoso número de dança, a cara daquela década, a maneira como o casal o satiriza não deixa de ser hilária, valendo-se, para isso, da expectativa em torno do momento no qual o cavalheiro deveria erguer e sustentar a dama no ar, tal como acontece no filme.

Última obra produzida pelo grupo joseense, que há anos vem se especializando na comicidade clownesca, "Mansão 80" é o resultado de uma pesquisa dedicada, que visa, sem dúvida, a excelência na área. Tomando-se como índice de aferição a alegria estampada no público que compareceu ao Cine Santana para assisti-la, dentro da programação do 32º Festivale, só se pode afirmar que o La Cascata, no sentido acima exposto, encontra-se à altura de sua aspiração.

Por Rodrigo Morais Leite

(Doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa nas áreas de crítica e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos) 

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