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Setembro 08, 2017 - 11:27

Matheus Nachtergaele comove o público na abertura do 32º Festivale

Matheus Nachtergaele

Matheus Nachtergaele

Foto: Divulgação

Confira crítica da peça 'Processo de Coscerto do Desejo', que abriu o evento na última terça-feira (5)

Simone Carleto
São José dos Campos

Cinco de setembro de 2017, abertura do tradicional Festival de Teatro de São José dos Campos. O espetáculo "Processo de Conscerto do Desejo" abriu o encontro que terá mais de 30 atrações, entre espetáculos, mesas redondas, oficinas e outras ações teatrais formativas. Em tempos de imensa crise de toda ordem que ataca frontalmente o investimento em arte e cultura, é louvável a permanência do Festivale. A programação valoriza a produção local e a troca com artistas de alcance nacional.

Na abertura pronunciaram-se de modo objetivo e breve o prefeito Felício Ramuth, o presidente da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, Aldo Zonzini e o curador do Festivale André Ravasco. André ressaltou a importância do trabalho de equipe na organização do 32º Festivale e deste para o crescimento do teatro na cidade.

Após esse preâmbulo, teve início o "Conscerto", ao som dos acordes primorosos da trilha sonora do espetáculo, executada impecável e organicamente por Luã Belik (ao piano e violão) e Bryan Dias (ao violino), substituindo o convidado especial Henrique Rohrmann. Depois de Canto Triste, de Edu Lobo, ao piano, seguiriam-se composições de Luã Belik, algumas em parceria com Matheus, além de obras clássicas, como de Bach, e outras de compositores brasileiros, como Dolores Duran e Paulinho Nogueira. Matheus Nachtergaele apresentou a narrativa de sua história com as artes e a poesia. Em perfeita sintonia com o público e enfrentando com delicada bravura os ruídos internos e externos ao espaço teatral no interior do shopping center, o ator demonstrou do começo ao fim do espetáculo domínio total do palco e a habilidade em interagir com o público que lotou o Teatro Municipal.

O espetáculo é um concerto a partir dos poemas da mãe do ator, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele, com quem o artista deixou de conviver aos três meses de idade. Assim, o ator compartilha a trajetória que busca ressignificar a mãe, vivenciada por ele pelos poemas e memórias deixadas pela poetisa. Dos poemas encontrados, Matheus fez fonte inesgotável de criação: processo artístico criativo e processo de elaboração de uma perda trágica, cortante e vivida com a máxima resiliência. Matheus canta, dança, narra e (re)vive o percurso cara a cara com as dores e fortalezas desse duplo processo.

A dramaturgia possibilita o diálogo direto com o público, do qual o intérprete se utilizou para as rupturas nos processos catárticos. Em um dos momentos, Matheus cantou uma canção infantil acompanhado das vozes e palmas do público. A obra é repleta de reminiscências e metáforas e apresenta passagens que permitem a identificação ou a reflexão, como a cena que retrata a densa relação que é a amamentação. Estar na plateia desse espetáculo permite olhar para dentro de si mesmo, e ali encontrar um refúgio acolhedor e ouvir aquele choro tímido que guarda-se no escuro.

No teatro, ao reconhecer no palco e no outro dores semelhantes, por alguém perdido, por alguém ausente, por vidas sem vida, essas dores se transformam. A vida continua, na cadeira de palha, na lua iluminando a espera. Ao final, uma valsa embala os presentes, transportando a tristeza para um lugar de aprendizagem e recriando o lugar do teatro como um grande salão de baile, onde todos dançam o grande concerto e as inúmeras tentativas de conserto que traduzem parte da experiência humana.

Ao final do espetáculo, Matheus Nachtergaele apresentou toda a equipe do espetáculo. Salta aos olhos a reverência com que o ator trata o trabalho de equipe no teatro, trazendo claramente a noção de ofício para o fazer artístico. Por todos esses motivos, é uma grande oportunidade vivenciar esta belíssima e tocante obra.

Por Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016)

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