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Setembro 08, 2017 - 11:33

Teatro do Rinoceronte ambienta Tchecov ao Brasil

Maroscas

Maroscas

Foto: Divulgação

Confira crítica da peça 'Maroscas', com a trupe do Teatro do Rinoceronte, por Simone Carleto

Simone Carleto
São José dos Campos

A 32ª edição do Festivale trouxe ao palco do Teatro Municipal, na noite de quarta-feira, 6 de setembro de 2017, o espetáculo "Maroscas", com a trupe do Teatro do Rinoceronte, de São José dos Campos. O coletivo representou adaptações de Carlos Rosa para duas peças cômicas escritas pelo autor russo Anton Tcheckov (1860-1904): "O pedido de casamento" e "O jubileu".

A direção geral também é assinada por Carlos Rosa, e a direção musical por Rômulo Scarinni, que também atua e toca diversos instrumentos. No elenco estão Guilherme Venâncio, Jean Fábio, Lucilene Dias, Mateus Guimarães e Paty Beghetto. Todos cantam, tocam alguns instrumentos e representam as duas histórias. A primeira trata de um quiprocó em torno de um pedido de casamento, revelando os interesses que dominam as relações. A segunda apresenta uma crítica à subserviência à cultura e capital estrangeiro.

Com a montagem voltada à nossa realidade, o grupo apresenta uma discussão da brasilidade, incluindo aspectos comportamentais da elite nacional e regional, de modo alegórico. Maroscas significa manobra ardilosa, trapaça. Nesse sentido, as duas peças contam com aspectos do comportamento humano ligados a esses tipos de expediente, com vistas a obter vantagens materiais.

O prólogo metalinguístico aborda a linguagem teatral, a partir de uma provocação cênica. O elenco traja figurinos remetendo ao inverno russo e entoa a canção "Noites em Moscou". Em seguida, retiram os casacos e apresentam o figurino com o qual será iniciada a primeira peça, expondo a proposta do espetáculo para o público. Fica evidente na encenação o processo de pesquisa do grupo relativa à linguagem da comédia, construindo um estilo próprio de estruturar suas obras, ao buscar referências da comédia de costumes, do vaudeville, do teatro de boulevard, do circo-teatro e as características farsas e melodramas, trazendo traços estilísticos destes para a interpretação. O trabalho conta ainda com teclado ao vivo, reforçando os elementos da opção estética dos criadores, bem como ocorre com os momentos em que os atores e atrizes formam coros ou o número musical entreatos.

Talvez pudessem ser feitas três indicações, apenas e tão somente com vistas ao aprimoramento de detalhes do espetáculo. Intensificar o trabalho vocal na segunda parte do espetáculo, pois algumas pronúncias ficaram ininteligíveis, o que é facilmente resolvido com articulação. Afinação da operação de luz, conferindo maior precisão à transição de algumas cenas; e a pesquisa de obras brasileiras do gênero, bem como da verticalização da investigação a respeito do estilo interpretativo próprio para a comédia nas chaves escolhidas pelo grupo.

Trata-se de um grupo comprometido com a pesquisa e a prática cênica, cuja presença no Festivale reforça a contemporaneidade do olhar da companhia para o material trabalhado. Do mesmo modo, também ao escolherem a canção de Francisco Alves que diz “Nem sempre o riso é alegria (…) ” e que “É necessário cantar para não chorar (…) ”, os artistas posicionam-se diante do momento histórico pelo qual passa o Brasil, com uma atitude de valorizar nossa fortuna artístico-cultural, sem deixar de criticar os comportamentos nocivos incrustados em nossa sociedade, visando expurgá-los.

Por Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016)

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