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Setembro 11, 2017 - 11:05

Um espetáculo que contempla risos e lágrimas

Sonhos Roubados

Sonhos Roubados

Foto: Paul Constantinides/Divulgação

Confira crítica da peça 'Sonhos Roubados', da Cia. Teatro da Cidade, por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite
São José dos Campos

O subtítulo de "Sonhos Roubados", último espetáculo produzido pela Cia. Teatro da Cidade, resume bem do que se trata a obra: um melodrama dell’arte. Ou seja, uma obra que procura combinar a hiperdramaticidade do melodrama, gênero popular de origem francesa, e a hipercomicidade farserca da commedia dell’arte, também conhecida como comédia italiana. Amparando-se, portanto, em dois universos extremos e supostamente antagônicos, um espetáculo assim concebido não esconde sua intenção de provocar, a um só tempo, lágrimas e risos desbragados no público, indo e voltando de um registro a outro sem nenhum problema.

Sua dramaturgia, assinada por Calixto de Inhamuns, entrelaça três histórias, todas recolhidas do passado joseense e de feitio dramático, das quais duas se ligam ao antigo Sanatório Vicentina Aranha. Uma delas, passada basicamente na década de 1930, trata de uma moça órfã e pobre (Marília) seduzida por um homem de família rica e tradicional (Eduardo). Após este contrair tuberculose, o casal, de origem mineira, vem para São José dos Campos em busca de tratamento, onde a menina será abandonada pelo companheiro (já curado) e morrerá tísica na mais absoluta miséria.

As outras duas histórias, ambientadas na década de 1960, tratam de Zé Preto, um feirante que sonha em se tornar um grande palhaço, e da figura excêntrica de Gelsomina, mulher misteriosa que aos poucos se descobre ser uma poeta e ex-militante na luta contra a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Para entremear todas essas tramas, apresentando ora uma ora outra, um dos atores (Jean de Oliveira) desdobra-se em narrador, exercendo uma função que lembra um pouco o compère (compadre) do antigo teatro de revista. Aliás, falando em desdobrar-se, todo o elenco, formado por dois atores e duas atrizes, representa mais de um papel em "Sonhos Roubados". O cenário em que se movem, cabe registrar, é formado basicamente por duas camas hospitalares (que remetem, claro, ao sanatório), além de outros objetos utilizados no decorrer da representação.

Se, por um lado, as histórias contribuem com o componente dramático do espetáculo, o cômico advém, principalmente, da encenação, na forma de gags muito peculiares ao teatro popular que incluem em seu repertório, até mesmo, elementos escatológicos. Além disso, o jogo empreendido pelos atores, de cunho despojado, não ignora o público, abrindo-se de vez em quando para ele, outro expediente pertencente mais ao território da comédia do que do drama ou do melodrama. Não à toa, a direção do espetáculo é de Neyde Veneziano, uma especialista no âmbito do teatro cômico, seja como encenadora, seja como pesquisadora acadêmica.

Pelos motivos expostos, "Sonhos Roubados" poderia ser definido, também, como uma espécie de “tragicomédia joseense”, ainda mais se se pensar que, diferentemente do melodrama, gênero que apresenta sempre final feliz, o seu desfecho, nas trilhas da tragédia, é infeliz, indo da ventura à desventura em todas as tramas apresentadas. Visto de uma perspectiva mais ampla, com "Sonhos Roubados" a Cia. Teatro da Cidade dá continuidade a uma pesquisa totalmente voltada à memória de São José dos Campos e à cultura local, algo de uma importância que ainda não foi, talvez, devidamente aquilatada. Que esta crítica, à sua maneira e dentro das suas possibilidades, contribua para isso.

Rodrigo Morais Leite

É doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa nas áreas de crítica e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos

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