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Setembro 11, 2017 - 20:33

Preservar ou transformar? Uma questão contemporânea?

Moranduba

Moranduba

Foto: Fernando Beck/Divulgação

Confira crítica da peça 'Moranduba', da Cia. Titerritório, por Simone Carleto

Simone Carleto
São José dos Campos

Logo após o tradicional desfile do dia 7 de setembro, presente em tantas cidades pelo Brasil afora, foi realizada mais uma apresentação teatral dentro da programação do 32º Festivale. Foi a vez de "Moranduba", da Cia Titerritório. O público da peça foi se juntando em torno da empanada preparada para a história contada pelos bonecos.

Em meio à competição sonora, cavalaria e motos da polícia transitando pela Praça Afonso Pena, além do som alto da música mecânica da dispersão do desfile. Então surgem os bonecos de luva para contar a história de Jurema. Moranduba, do tupi-guarani, significa notícia, novidade, história, narração. A história de Jurema foi coletada e registrada, juntamente com outras fábulas indígenas no livro Morandubetá, de Heitor Luís Murat.

A fábula encenada conta que Jurema completaria o ciclo lunar, tornando-se mulher. Para encontrar um companheiro, o pai ordenou que os pretendentes passassem por algumas provas de sangue: arrancar as orelhas de um jaguar; conseguir o maracá de uma maracaboia ou dar um abraço numa cobra grande. São mostrados os estereótipos masculinos e seus traços de personalidade predominantes. Jacaúna, o esperto; Tataiçá, o fogoso; e Carcará, o valente. Todos eles são vencidos e perdem a vida justamente por se vangloriarem de seus atributos. Em vez da festa do dabukuri, houve o kuarup, homenageando os mortos.

Por fim, aparece Macunaíma, aquele que reúne todas as qualidades e representa o amor verdadeiro. Todos os bonecos foram produzidos e são manipulados pelo ator Charles Maurício Kray, que apresenta quase dez diferentes vozes. Samuel Falquetti Saliba faz a função narrativa por meio das músicas, que comentam o espetáculo, estabelecendo a ligação entre a história e o público. Adultos e crianças acompanharam atentamente a narrativa, que explica termos da cultura Guarani e, também de forma lúdica, as características dos animais e das personagens. Houve participação ativa das crianças tomando parte da história e interagindo com os bonecos.

Em bate-papo com o grupo, uma das ações formativas propostas no festival, a mediadora Fabiana Monsalú comentou a respeito do tema do Festivale, Olhares Contemporâneos, o que possibilitou refletirmos a respeito de alguns temas contemporâneos que a montagem pode suscitar. Pode-se pensar, por exemplo, sobre o modo como o índio fogoso apresenta um comportamento abusivo, quando beija a índia sem que ela queira. Além disso, toda a responsabilidade pelas mortes recai sobre ela, que é acusada por todos os conflitos da aldeia, e, contraditoriamente à própria cultura indígena, pede perdão ao final. Desse modo, não são responsabilizados os próprios pretendentes pela presunção que apresentaram durante o enredo, em que desafiaram as forças da natureza.

Uma sugestão que surgiu durante o bate-papo foi repensar a função do músico com a intencionalidade narrativa, além da revisão da moral presente na encenação. Pois mesmo que a fábula se apresente desse modo, é fundamental o olhar para as questões contemporâneas tão emergentes e urgentes como o combate ao machismo e a importância da promoção da equidade de gênero. Sobretudo tratando-se de espetáculo que, ainda que não tenha sido produzido especificamente para o público infantil, tenha absoluta função formativa, tendo em vista adotar uma fábula para sua encenação.

As questões relativas à preservação de certas tradições e produções culturais que ferem a dignidade e os direitos humanos têm sido intensamente debatidas e precisam ser consideradas no teatro. O argumento da licença poética e da manutenção de manifestações culturais como obras museológicas é uma questão discutida desde a modernidade e que, na contemporaneidade, não passarão despercebidas por movimentos sociais que buscam reparar os equívocos históricos que muitos insistem em naturalizar.

Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016).

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