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Setembro 11, 2017 - 21:19

Memorialismo e lirismo se unem no espetáculo 'Atenciosamente, Srta. N'

'Atenciosamente, Srta.N'

Foto: Paulo Amaral/Divulgação

Confira crítica a peça 'Atenciosamente, Srta. N', do projeto Cartas, por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite
São José dos Campos

"Atenciosamente, Srta. N", espetáculo do Projeto Cartas apresentado no 32º Festivale, se insere dentro de um campo normalmente designado como “teatro documentário”, para o qual, muito genericamente, a ficção não basta. Isso significa dizer que, na visão dos “adeptos” dessa corrente do teatro contemporâneo, a obra teatral pode e deve absorver elementos do mundo real, tais como documentos históricos ou de cunho pessoal, tensionando os limites entre o que seria pura imaginação e o que seria “cópia fiel” da realidade em sua configuração.

No trabalho do grupo joseense, como o título sugere, seu aspecto documental diz respeito a algumas cartas recebidas ou enviadas por Natália Bastos, a atriz-narradora que também assina a dramaturgia desse solo. Em cena, além de um contrabaixo upright (salvo engano), dois teclados e um microfone, posicionados à direita do espectador, uma série de caixas de diferentes tamanhos espalhadas pelo chão mais à esquerda. À medida que o público adentra no espaço onde a obra se desenrola, tais caixas, desprovidas de fundo, são realocadas pela atriz, revelando, ao deixarem o local de origem, objetos como uma bacia, uma cafeteira, uma bandeja de prata e outros mais. Aos poucos, enquanto os espectadores se acomodam, as caixas, empilhadas umas sobre as outras, dão origem a um móvel de sala, onde os objetos são reacomodados e de onde a atriz os tira para a realização de algumas cenas no decorrer da apresentação. A trilha sonora, a cargo de Luise Martins, como não poderia deixar de ser, é executada ao vivo e com a musicista em cena.

O espaço no qual a atriz transita é pequeno mas dividido, basicamente, em duas partes: a do microfone, reservada para a leitura das cartas, e a do tapete, localizada ao lado e destinada às cenas não documentais, de caráter épico-lírico. Ali, ao mesmo tempo em que Natália Bastos narra sua história de vida, algo próprio do teatro épico, ela também procura transmitir seu “estado de alma” sobre os homens e as coisas, revelando, assim, o seu viés lírico.

No começo, após a leitura de algumas cartas da avó, tem-se a impressão de que o espetáculo discorrerá sobre certas normas sociais impostas ao sexo feminino, transmitidas, como é de praxe, de geração em geração (no caso, da avó para a neta). No intuito de materializar cenicamente como essas normas teriam sido absorvidas pela “netinha da vovó”, a atriz se vale da bacia à disposição, tentando, a todo custo, caber dentro dela, bela metáfora visual que, aqui descrita, não revela sua força.

Contudo, a partir de um determinado momento, percebe-se que "Atenciosamente, Srta. N" vai além disso, tocando em alguns pontos que suplantariam a temática feminista inicialmente sugerida, como, por exemplo, as consequências advindas da perda de um irmão, falecido ainda bebê, ou as relações estabelecidas com um cachorro de estimação. No desenrolar da obra, todas essas questões, surgidas de modo mais ou menos esparso, servem para compor um universo alegórico peculiar, que vai muito além do mero desabafo, ao contrário do que, talvez, se poderia pensar à primeira vista.

Nesse sentido, a força desse trabalho estaria contida na sua capacidade de metaforizar bem as memórias trazidas à tona pela atriz-dramaturga, conseguindo, por conseguinte, fazer com que elas se tornem também as nossas memórias, tal como acontece em alguns filmes de Federico Fellini ou em certos livros de Pedro Nava, cada qual à sua maneira. Se todas elas foram realmente vividas, aí já é outra história...

Rodrigo Morais Leite

(É doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa nas áreas de crítica e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos)

 

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