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Setembro 12, 2017 - 14:48

Uma recriação singular do universo beckettiano

Mundomudo

Mundomudo

Foto: Paulo Brazyl/Divulgação

Confira crítica da peça 'Mundomudo', da Companhia Azul Celeste, por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite
São José dos Campos

Uma das marcas do Festivale deste ano é, sem dúvida, a onipresença de Samuel Beckett (1906-1989), dramaturgo cuja obra pode ser antevista, direta ou indiretamente, em quatro espetáculos apresentados no festival, incluindo aí os convidados e os selecionados para a mostra ("Pé na Curva", "Esperando Godot", "Mundomudo" e "Adeus Palhaços Mortos"). Lembrando-se de que o evento, agora em sua 32º edição, contempla o tema “Olhares Contemporâneos”, a escolha de um autor falecido há quase trinta anos estaria de acordo ou iria de encontro ao recorte proposto?

Isso depende, claro, do que se entende por “contemporâneo”. Se se compreende o termo como tudo aquilo que vive ou existe numa determinada época, é claro que Beckett deixaria de ser contemporâneo, pelo simples motivo de ele não estar mais entre nós. Tomando a palavra, contudo, em um sentido mais lato, compreendendo-a como tudo aquilo que vem depois do moderno, de acordo com certa periodização peculiar à história das artes, então, sim, Beckett poderia ser taxado de contemporâneo, visto que toda a sua obra se desenvolveu após o episódio que seria o delimitador entre um período e outro: a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

No caso de "Mundomudo", o espetáculo que aqui se pretende analisar, produzido pela Companhia Azul Celeste, muito sumariamente ele poderia ser definido como uma adaptação pantomímica de Fim de Partida (ou Fim de Jogo, a depender da tradução), peça escrita em 1954 pelo autor irlandês. Composta de um único ato, a obra trata da relação a um só tempo parasitária e sádica existente entre um deficiente físico (Hamm) e seu serviçal (Clov), dois seres que supostamente vivem isolados numa região remota e deserta. A acompanhá-los, apenas Nagg e Nell, os pais de Hamn, figuras secundárias que, de acordo com as indicações de Beckett, vivem em latões de metal.

Na adaptação levada a cabo pelo grupo de São José do Rio Preto, realizada pela dramaturga Cíntia Alves, suprimiram-se, além dos diálogos, as personagens de Nagg e Nell, de modo que, da peça, restasse apenas o essencial: a situação, por excelência estática, entre Hamm, que detém o controle sob os mantimentos da casa, e Clov, o cuidador responsável em suprir as necessidades e caprichos de alguém entrevado numa cadeira de rodas. Na passagem do texto beckettiano para a construção da dramaturgia de "Mundomudo", o cenário também foi alterado: o bunker onde os protagonistas pareciam se abrigar cede lugar ao picadeiro de um circo, aparentemente também distante e isolado de tudo e de todos.

Para que os aspectos de poder e dependência que permeiam a relação do par pudessem ser expressos sem a utilização de nenhuma palavra, valendo-se somente de gestos e jogos de cena, "Mundomudo" lança mão de um artifício que é um verdadeiro achado: equipar a cadeira de Hamm com uma série de acessórios como buzinas, apitos e outros instrumentos afins, cada um deles significando um determinado desejo do cadeirante que precisa ser atendido, como tomar café, se alimentar ou se coçar. A graça do espetáculo, tipicamente clownesca, concentra-se em especial na dualidade entre quem, a cada momento, requer alguma coisa, e quem, para realizá-la, acaba quase sempre se atrapalhando. Ou seja, no jogo típico dos palhaços, com Hamm exercendo a função do clown branco (não à toa o ator que o interpreta utiliza maquiagem branca no rosto) e Clov a do augusto, aquele que tem o nariz vermelho por causa dos tombos que leva. Nesse sentido, diga-se de passagem, a obra do coletivo rio-pretense lembraria mais "Esperando Godot" do que Fim de Partida, visto que na primeira peça esse componente clownesco está contido na construção das personagens de Wladimir e Estragon, enquanto na segunda, salvo engano, não.

Por conter momentos memoráveis de pura palhaçaria, entremeados de outros mais ternos e singelos, "Mundomudo" é um espetáculo que, fazendo um exercício de adivinhação, provavelmente agradaria Beckett, em que pese o dramaturgo, quando vivo, jamais ter demonstrado simpatia por montagens que interviessem demais em sua obra. À medida que o autor produzia sua dramaturgia, vale lembrar, esta foi se tornando cada vez menos verborrágica, a ponto de, em alguns casos, ele ter criado peças sem nenhum diálogo, constituídas somente por rubricas. Com efeito, dentro dessa ótica um tanto inusitada, "Mundomudo" seria um espetáculo no qual um Beckett ainda iniciante surge revisitado pelo seu par da maturidade, lembrando que Fim de Partida está entre suas primeiras obras feitas para o teatro.

Para que o resultado final agradasse tanto, arrancando aplausos entusiásticos de toda a plateia presente ao CET, não se pode esquecer de citar os seguintes itens (além dos já mencionados): o cenário, que sugere com eficácia um circo em decadência; a luz, feita apenas com lâmpadas incandescentes comuns; a atuação afinadíssima dos atores (Jorge Vermelho e Henrique Nerys); e, como não poderia deixar de ser, a direção de Georgette Fadel, portadora de uma dinâmica própria que se intensifica no decorrer da representação.

Como reserva, registre-se apenas que a saída de Clov do circo, importante por significar, além do fim da “partida” disputada pelos contendores, o fim de linha para a personagem de Hamm, poderia, quem sabe, ser um pouco melhor preparada em termos dramatúrgicos, acontecendo de uma maneira menos inesperada.

De resto, cabe ainda lamentar que a belíssima cena final, na qual Hamm, com a luz baixando em resistência, gira sem parar sua cadeira de rodas, em virtude, provavelmente, da irregularidade do palco, não foi possível de ser feita, exigindo da produção uma solução que decepciona quem já teve a oportunidade de assistir ao espetáculo em outra ocasião.

PS: por causa da enorme afluência de público na apresentação de "Mundomudo", um número enorme de pessoas não conseguiu ingresso, vendo-se obrigada a voltar para casa sem ver o espetáculo. O episódio reforça a necessidade de se reformar com urgência o galpão onde ficava o CET original, hoje interditado, na medida em que o atual, com suas dimensões limitadas, não atende às aspirações da classe artística joseense e nem à demanda do público consumidor de teatro da cidade, felizmente cada vez maior.

Rodrigo Morais Leite

(É doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa nas áreas de crítica e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos)

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