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Setembro 12, 2017 - 15:05

Partilha de processo de 'A Receita' desperta debate estético no Festivale

A Receita

A Receita

Foto: Milena Takamatsu/Divulgação

Confira crítica da peça 'A Receita', do Núcleo de Artes Cênicas, por Simone Carleto

Simone Carleto
São José dos Campos

Uma das parcerias do Festivale traz para a programação uma abertura de processo do trabalho cênico realizado no Núcleo de Artes Cênicas – NAC, do Serviço Nacional da Indústria – Sesi. A base da experimentação é o texto de Jorge Andrade (1922–1984). A peça foi escrita em 1968 pelo autor para a Primeira Feira Paulista de Opinião, e foi encenada com direção de Augusto Boal (1931–2009). A Feira se caracterizou em um ato de resistência contra a Ditadura Civil-Militar instaurada em 1964, e reunia uma série de artistas e produções ligados à crítica social, por meio de textos dramatúrgicos e encenações que buscavam discutir a realidade brasileira. O processo de repressão teve seu recrudescimento em dezembro do mesmo ano, com o Ato Institucional número 5 – AI-5, conferindo plenos poderes ao regime militar autoritário.

Os experimentos realizados pelos Centros Populares de Cultura (CPCs), pelo Teatro de Arena e Teatro Paulista dos Estudantes (TPE) pesquisando formas dramatúrgicas de de interpretação que dessem conta dos temas a serem abordados, contribuíram para a estruturação do sistema coringa e do Teatro do Oprimido, sistematizados por Augusto Boal. As influências do Agit-prop (agitação e propaganda) europeu, assim como o teatro épico sistematizado por Bertolt Brecht (1898 –1956). Estes reúnem expedientes que explicitam o caráter histórico dos acontecimentos, circunstanciando-os socialmente e possibilitando a reflexão crítica a respeito destes, de modo a desnaturalizá-los, ou seja, tornando-os passíveis de transformação. Assim, as montagens utilizam notícias de jornal, músicas, imagens, entre outros recursos e linguagens expressivas.

Também no Núcleo de Artes Cênicas do Sesi de São José dos Campos foi desenvolvido processo de criação que envolve multilinguagens. Cenografia e figurinos, música e interpretação são abordadas com vistas a construir a obra teatral. Segundo o orientador Roberval Rodolfo, neste ano foi oferecido como tema para o trabalho os 30 anos do Núcleo de Artes Cênicas, desde 2010 desenvolvido em São José dos Campos. Em 2017, a partir de um exercício, o tema miséria foi o recorte definido pra o trabalho. Miséria em sentido amplo, para além da precariedade material, investigando a pobreza das relações humanas, entre outros aspectos enfocados.

O elenco de 23 pessoas se divide entre a execução da trilha sonora e a representação das personagens da obra, que retrata o modo pelo qual a medicina trata a doença, numa discussão da função social do conhecimento e da exploração do ser humano pelo ser humano. O médico representa o conflito entre a precariedade do exercício de sua função e a empatia pelos oprimidos. Heterogêneo, o coletivo se apresenta absolutamente à vontade, demonstrando apropriação do processo vivenciado e dos subtemas abordados: o papel social feminino, a função do trabalho rural, a prostituição, entre outros.

Percebe-se a busca da contemporaneidade da obra tanto do ponto de vista temático como formal. Para tanto, os intérpretes permanecem em cena todo o tempo, e algumas personagens são representadas por vários atores e atrizes, como o médico, a mãe e Carlinda, irmã de Devair, que terá a perna amputada. Nesse sentido, com a continuidade do processo até a estreia em novembro, seria interessante aprofundar as práticas em torno da construção coletiva das personagens em revezamento, bem como da função do coro já belíssimo com vistas a materializar as intenções explicitadas no bate-papo realizado após a apresentação do processo.

O público presente demonstrou interesse em discutir as questões estéticas do processo de criação, o que reforça a importância da existência de espaços de pesquisa e criação como esse, como também aponta a relevância do processo criativo para a formação cultural. A atitude ética em realizar aberturas de processo denota coerência com o fazer artístico e o compromisso com a obra aberta, pressupondo a imprescindível troca com o público para a completude do fenômeno teatral.

Simone Carleto

(Crítica do 32º Festivale. Artista pedagoga, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Unesp. Foi atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação de 2001 a 2008. Participou da implantação e coordenou a extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, de 2005 a 2016)

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