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Setembro 13, 2017 - 12:36

Um espetáculo-encontro

Fauna

Fauna

Foto: Guto Muniz/Divulgação

Confira crítica da peça 'Fauna', do grupo Quatroloscinco teatro do Comum, por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite
São José dos Campos

De todos os espetáculos apresentados este ano no Festivale, Fauna, do Grupo Quatroloscinco, talvez seja, sob certo aspecto, o mais “contemporâneo” de todos, ou seja, o mais afinado com o tema escolhido para o festival de 2017 (“Olhares Contemporâneos”). Isso porque, ao contrário da maioria das obras presentes na mostra, pelo menos as que este espectador teve oportunidade de assistir, "Fauna" é a única que procura romper completamente com quaisquer expedientes representacionais, de modo que nela não se encontre nem personagens minimamente esboçadas, nem uma história minimamente delineada.

Os dois atores em cena (Assis Benevenuto e Marcos Coletta) não encarnam nenhum papel e não procuram representar, por meio da imitação, nenhuma figura ou situação acontecida em outro tempo ou lugar. Em suma, eles são eles mesmos, naquele determinado tempo (9 de setembro de 2017) e naquele determinado lugar (o CET, Centro de Estudos Teatrais da Fundação Cultural Cassiano Ricardo). Levando-se em consideração que uma das premissas do chamado “teatro contemporâneo” tem sido, já há alguns anos, distender os limites que separariam o teatro da vida propriamente dita, abandonando a representação em prol da ação, a contemporaneidade de "Fauna" revela-se, nesse sentido, inquestionável.

Desde os primeiros momentos do espetáculo, com os atores oferecendo cerveja ao público sob o pretexto de iniciarem, com ele, uma conversa livre e informal, percebe-se que sua base se apoia muito mais na coautoria própria da relação ator-público do que na autoria tradicional inerente ao par texto-ator. Em linguagem menos técnica e rebuscada, "Fauna" investe em sua fatura muito mais no vínculo estabelecido dos atores com os espectadores do que no vinculo daqueles a um texto pré-concebido. Com efeito, na condição de atores-provocadores, tanto Assis como Marcos se mostram, em cena, totalmente desimpedidos da função de intérpretes, isto é, de servirem como mediadores entre um texto e o público que os assiste.

Isso significa dizer que não há nenhum texto prefigurando "Fauna"? Não. Significa que esse elemento é tomado apenas como ponto de partida, uma espécie de partitura que se mostra porosa à inclusão da assistência, fazendo dela, portanto, uma entidade ativa, capaz de subsidiar o espetáculo. Para levar isso a termo, diversos procedimentos são mobilizados, sendo o mais óbvio as perguntas direcionadas a alguns espectadores presentes na ocasião, algo próprio de uma dramaturgia textual. Para além dela, tem-se em "Fauna" uma dramaturgia de cena que inclui em seu escopo até mesmo a retirada dos calçados do público, assim que este adentra o local onde a obra se desenrola. Posteriormente, todos esses calçados são amontoados no centro do espaço cênico, formando uma imagem que, conforme um dos atores revela, remete às montanhas de sapatos existentes em Auschwitz vistas por ele quando em visita à Polônia.

De todo modo, por se constituir em um espetáculo de partitura aberta, não se pode esperar, jamais, uma apresentação de "Fauna" igual a outra, pois sua eficácia cênica sempre dependerá, em algum grau, da maneira como os espectadores reagem à proposta, aceitando, ou não, entrar no jogo. No caso da apresentação assistida neste Festivale, o que se pode dizer é que o público embarcou totalmente.

Se "Fauna" é, por um lado, um espetáculo aberto do ponto de vista dramatúrgico, ele também se mostra assim do ponto de vista semântico, tratando-se, por conseguinte, de uma obra teatral pouco afeita a ser interpretada. Contudo, o que se pode perceber, tomando como base o todo mas, especialmente, o epílogo de Fauna, único momento no qual sua partitura se fecha, é que se trata de um “espetáculo-encontro”, cujo sentido último talvez deva ser buscado na ideia, cada vez mais essencial, de alteridade.

Rodrigo Morais Leite

(É doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa nas áreas de crítica e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos)

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