São José dos Campos
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No decorrer do dia o dia terá com variação de nebulosidade na região.
Editorial
Novembro 29, 2017 - 18:10

A flauta que TE roubaram

Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Foto: Divulgação


No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na minha vida de retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra.

No poema ‘No meio do Caminho’, de 1930, o mineiro Carlos Drummond de Andrade faz um alerta aos leitores: no meio do caminho tinha uma pedra. Em São José dos Campos, terra do poeta Cassiano Ricardo, o ano é 2017 e a pedra foi retirada do meio do caminho.

Ao menos a pedra fundamental colocada na década passada na avenida que possui o nome do poeta, no Jardim Aquarius, para marcar o local (onde hoje está localizada a praça Torii) em que seria construído o Memorial para homenagear o escritor e, inclusive, receber seus restos mortais — hoje mantidos na ABL (Academia Brasileira de Letras), no Rio de Janeiro.

Descansar em sua terra natal era um desejo de Cassiano.

Mas, o Memorial, projeto por Oscar Niemeyer, virou cinzas, foi esquecido, descartado, ignorado pelo poder público de São José, que optou por engavetá-lo. Seria um resquício da ignorante e equivocada afirmação de que Cassiano não gostava de sua terra natal?

Que dirão da minha poesia os que não tocaram meu sangue?’, questionaria, possivelmente, o poeta chileno Pablo Neruda.

O que já estava ruim, no entanto, ainda pode piorar quando a cultura é tratada (ou maltratada) como algo supérfluo, descartável. OVALE revelou, com exclusividade, que o projeto do Memorial Cassiano Ricardo foi doado pela administração Felicio Ramuth (PSDB) à prefeitura de Caçapava.

E agora (São) José?

Você marcha, (São) José.

(São) José, para onde?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind.

Querendo por uma pedra no assunto, o governo afirma que o ‘projeto é da prefeitura’ e que ‘o que aconteceu foi meramente a disponibilização de cópias dos documentos entre dois entes públicos e não a formalização da doação’.

Na cidade que fecha a Orquestra Sinfônica e doa o Memorial de seu filho mais ilustre, resta à cultura fazer uma prece cósmica. Afinal, a cultura é o caminho. A ignorância é a pedra. E agora, (São) José? O que resta? O resto é silêncio.

Era em S. José dos Campos.

O horizonte estava perto.

Tudo parecia (in) certo

admiravelmente (in) certo.

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