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Abril 26, 2018 - 23:01

Exposição no Sesi São José homenageia precursor do ready-made

ArnaldoAntunes

Guarda-chuva. 'Sol' (2008), de Arnaldo Antunes

Foto: /Fernando Laszlo/Divulgação

Paula Maria [email protected]

Para participar como expositor do Salão dos Artistas Independentes de Nova York, em 1917, havia uma única regra: pagar uma taxa de US$ 6. Era a oportunidade perfeita para o artista francês Marcel Duchamp (1887 - 1968) apresentar seu mais novo trabalho: "Fountain" (Fonte).

A obra, no entanto, como esperado, não foi bem aceita. Tratava-se apenas de um mictório invertido, assinado por um pseudônimo, R. Mutt, e datado. Em meio a pinturas, esculturas e fotografias, o urinol de Duchamp causou indigestão no público.

Será isso arte?! Naquele momento, a resposta seria "não". Na verdade, há 100 anos ainda existe quem debata a questão. Fato é que o objetivo de Duchamp em questionar o "status quo" vigente da arte até então havia sido alcançado. Ainda que diante da perplexidade (e indignação) da sociedade, tal gesto abriu um imenso portal de liberdade criativa.

"Ready-made" foi o nome dado àquela expresão artística. Ao pé da letra, significa algo já feito, manufaturado, pronto. Conceito que põe em xeque tudo aquilo que se entendia por arte.

"O ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando, interpretando suas qualidades intrínsecas e, dessa forma, acrescenta sua contribuição ao ato", dizia Duchamp.

E mais de cem anos depois de "Fountain", são muitos os seguidores daquilo que o pesquisador Daniel Rangel chama de "ressonância mórfica duchampiana". O legado do artista francês pode ser visto em diversos movimentos artísticos, como a Pop Art surgida na Inglaterra e nos EUA, e no trabalho de inúmeros artistas, inclusive brasileiros.

E são algumas das obras de nomes da arte no país que estão expostas no Sesi São José, em "Ready Made in Brasil", mostra que homenageia os 100 anos de "Fountain".

em são josé.

Na unidade joseense da instituição estão expostos trabalhos de cerca de 15 artistas, entre eles, Nelson Leirner, Guto Lacaz e Arnaldo Antunes, que produzem suas obras com garrafas, vassouras, cabides, pratos, aquários...

"Ao escolher as peças, usei os mesmos critérios de seleção da mostra maior, que realizamos na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), no ano passado. A primeira foi mostrar a produção Ready-made ao longo dos anos. Então há artistas das décadas de 1960, 70, 80, 90 e 2000, o que representa sete gerações reunidas", afirmou Rangel, curador da mostra.

"O segundo critério foi trazer artistas que produzissem segundo as tradições duchampianas: uso de objetos comuns; arte conceitual com jogos de palavras; e homenagem aos jogos; entre outros procedimentos", continuou.

Segundo o pesquisador, as peças em São José ganham em individualidade. Por ser uma exposição menor, cada obra ganhou sua relevância. "É possível visualizar uma relação mais nítida entre elas".

Mas afinal...

Isso é ou não arte? "A priori, as obras expostas são de artistas consagrados, fazem parte de coleções de museus, possuem grande valor comercial e são estudadas... Então, todo o sistema que envolve a arte está aí para responder. Já a dúvida o que é ou não arte no mundo, é uma questão ainda mais profunda", afirmou Rangel.

"É preciso que as pessoas vejam que há um pensamento por trás de cada obra. Uma intenção, uma repetição, uma pesquisa e uma série de outras questões. Não é apenas o ato de fazer, o artista vive todo o processo. Ele está constantemente pesquisando isso", disse ele.

Se há quem esteja questionando o que é ou não arte depois de ver a exposição, para o pesquisador, o objetivo dela foi atingido. "Essa é justamente a provocação. Queremos que todos olhem diferente para a produção artística, é a construção de um novo conhecimento. Às vezes, há uma pintura no suporte de um quadro e ela é classificada como arte. E na verdade, é apenas uma pintura feita por alguém que pinta por prazer, sem propósitos. Mas, para o leigo, trata-se de arte apenas porque está com uma moldura. Então é preciso desconstruir essa ideia pré-concebida. É isso que o trabalho de Duchamp tem feito há mais de 100 anos".

Serviço.

O Sesi São José fica na av. Cidade Jardim, 4.389, Bosque dos Eucaliptos. Até dia 7 de julho. Entrada gratuita..

 

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