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Junho 25, 2018 - 23:08

100 anos de Urupês: personagem de Lobato, Jeca Tatu é ponto central de mostra

exposição urupes

exposição urupes

Foto: /Fotos: Rogério Marques/OVALE

Paula Maria [email protected]

Não há "Urupês" sem Jeca Tatu. Bem como não há Jeca Tatu sem "Urupês". E é para comemorar os 100 anos do best-seller do taubateano Monteiro Lobato, que uma exposição dedicada ao polêmico personagem caipira foi montada no parque Vicentina Aranha, de São José.

Lançado em 1918, o livro "Urupês" contém 12 contos e dois ensaios. No entanto, alguns textos já tinham sido publicados anteriormente no jornal "O Estado de S.Paulo", em 1914. Este é o caso do artigo que leva o nome do livro e que introduziu o personagem Jeca Tatu na literatura.

O famoso caipira paulista nasceu em letra de fôrma ainda como Geca Tatu, segundo o historiador Mário Luiz Gomes, curador da mostra e proprietário da coleção exposta. E o texto causou polêmica ao descrever o homem do campo como "piolho da terra", improdutivo e destruidor da natureza.

"Num primeiro momento, o Jeca Tatu acabou se tornando um grande problema ao Lobato. Quando criou o personagem, ele era um fazendeiro e a imagem que descreveu seria a do agregado da fazenda. Sempre houve, por exemplo, o hábito de se queimar a mata para plantar, e Jeca é esse homem, que não sabe preservar a natureza", contou Gomes. Vale lembrar que o personagem era descrito ainda como sem cultura, nômade e beberrão.

No entanto, segundo o historiador, na época, a intelectualidade, que se via às voltas com a discussão sobre as causas do atraso no Brasil, buscava um modelo de homem brasileiro.

"Quando Lobato aparece com Jeca, todos se voltam contra ele. Não era possível que aquele fosse o nosso retrato! Assim, o caipira que ele criou acabou inclusive comprometendo a sua carreira", continuou Gomes.

Ou seja, se quisesse paz, o escritor teria que dar um jeito no Jeca... E deu! Lobato então escreveu o conto 'Jeca Tatu, a ressurreição' em que revela que o personagem não era o homem preguiçoso descrito antes, mas ela tinha esse comportamento porque, na verdade, estava doente. "O autor volta atrás, pede desculpas por tê-lo julgado mal. Muda a realidade, salva o Jeca e se salva junto".

Sucesso.

Ainda para não ter dúvidas, Lobato escreveu "Jeca Tatuzinho", seu livro infantil, em que ele ensina às crianças a ter mais cuidado com a higiene e, claro, não andar com os pés no chão e tomar direitinhos os remédios.

"Foi aí que, em 1925, esse Jeca Tatuzinho se torna personagem da propaganda do medicamento Biotônico Fontoura", afirmou Gomes. "Essa, aliás, foi a maior peça publicitária da história do Brasil. Foram entregues mais de 100 milhões de exemplares do material da campanha até 1990".

A mostra no Vicentina Aranha parte daí. O material raro exposto faz parte da biblioteca do historiador. Entre as peças da mostra estão a reprodução do artigo original "Urupês", de 23 de dezembro, de 1914; a terceira edição da obra, com capa de José Whast Rodrigues; exemplares de "Jeca Tatuzinho" adaptados para a promoção dos produtos farmacêuticos do Instituto Medicamenta Fontoura & Serpe - incluindo as edições em alemão e japonês e exemplares do "Almanaque Fontoura", com reportagens referentes ao personagem.

"Sou um amante dos livros, frequentador de sebos desde a adolescência. E quem gosta do livro como objeto - se interessa não só pelo texto, mas pela capa e tipografia, entre outros elementos -, naturalmente admira o escritor e editor Monteiro Lobato", disse o historiador. "E eu tenho uma coleção de obras. No entanto, já não faz mais sentido guardar tudo isso para mim, acumular. Então, o pouco que sei e tenho quero compartilhar. E mostras como esta são oportunidades para fazer isso", finalizou.

Serviço.

O parque Vicentina Aranha fica na r. Eng. Prudente Meireles de Morais, 302, Vila Adyana. A exposição fica em cartaz até o dia 1º de julho.

Nesta terça-feira, ocorre no local um bate-papo sobre a obra de Lobato, como parte do projeto "Fora da Caixa". No centro do debate, a historiadora Tania Regina de Luca, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista); e a educadora Deise Morais, professora de literatura na Unitau (Universidade de Taubaté).

Haverá ainda intervenções do escritor Charles Lima, que lerá trechos da obra. O evento será à partir das 19h e a entrada é gratuita..

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