Editorial

O presidente kamikaze

02/07/2022 às 02:10.
Atualizado em 02/07/2022 às 02:10

Kamikaze era o termo utilizado para se referir aos pilotos de aviões japoneses que tinham como missão realizar ataques suicidas contra navios de nações adversárias na Segunda Guerra Mundial.

O termo, desde então, virou sinônimo de ações suicidas, principalmente em sentido figurado. Não à toa, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) aprovada pelo Senado na noite da última quinta-feira (30) recebeu esse apelido.

A diferença é que, na PEC Kamikaze, o piloto (Jair Bolsonaro) está fazendo de tudo para se salvar, nem que para isso precise explodir o avião que pilota (o Brasil, no caso).

Um nome mais correto, por isso, seria PEC do Desespero. Apavorado com o risco de perder a eleição de outubro, o presidente da República resolveu partir para o tudo ou nada. Ou para o vale-tudo. Nesse caso, aparentemente, vale-tudo mesmo, já que a legislação - a Constituição Federal, a Lei de Responsabilidade Fiscal e as leis eleitorais - foi rasgada.

A PEC eleva o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, o auxílio gás de R$ 60 para R$ 120 no bimestre e cria um auxílio de R$ 1.000 para caminhoneiros. Essas medidas esbarram em restrições da legislação eleitoral, que existem para evitar o uso da máquina pública em anos de pleito. O que foi feito para tentar driblar isso? Será declarado estado de emergência, com a desculpa de que o preço dos combustíveis teve sucessivas altas. Ora, não é de hoje que a inflação está acima de 10%, que a miséria e a fome cresceram no país. A única emergência no horizonte de Bolsonaro é o risco de ser derrotado nas urnas. E isso nem é disfarçado, já que o pacote de bondades será pago justamente até o fim de 2022.

Além do obstáculo jurídico, a PEC também tem impacto econômico. Apenas esse pacote terá custo de R$ 41,25 bilhões. No total, o conjunto de medidas eleitoreiras de Bolsonaro, que inclui ainda renúncias fiscais e antecipação do 13º a aposentados e do FGTS, por exemplo, já soma R$ 343,4 bilhões. Seja quem for o próximo presidente, encontrará as contas públicas em situação ainda pior do que a atual.

Quando ainda era apenas um deputado, Bolsonaro se referia ao Bolsa Família como 'Bolsa Farelo' e 'voto de cabresto', e defendia o fim do programa. O presidente não é um kamikaze. Mas fará de tudo por seu projeto pessoal de poder.

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