Kelma Jucá

Viver é reticências

Borocoxô e pálido, o ponto não quis se dar por vencido. Ele queria continuar. E foi ficando, postergando

Kelma Jucá, Jornalista
16/06/2022 às 16:33.
Atualizado em 18/06/2022 às 05:07
Kelma Jucá (Divulgação)

Kelma Jucá (Divulgação)

Era uma vez um ponto que se achava final. Juiz de si, acreditava-se concluído. Arbitrar a própria história é enveredar-se num caminho de espinhos e dele sair anêmico e com os pés rachados. Um ponto pronto não tem mais o que fazer. O apocalipse chegara e era ainda tão jovem, lamentou.

Borocoxô e pálido, o ponto não quis se dar por vencido. Ele queria continuar. E foi ficando, postergando. De tanto querer ficar, não foi embora. Esticou-se demoradamente e se fez vírgula. Ali pousou. Ficou parado, inerte. Uma pausa.

E demorou-se assim por muito tempo. Eis que de um cacto, seco e sem esperança, brotou uma flor branca. De tanto ficar e ficar, fez dali morada. Mandacaru mandou lembrança! Sem cerimônia, soltou um suspiro preguiçoso. Ganhou um pingo; virou ponto e vírgula. E ficou mais tempo. No meio da passagem. Dividindo as ideias. Enumerando pensamentos. Separando orações descoordenadas de um viver insone e mal nutrido.

O corpo todo quebrado. A alma estilhaçada. Pôs-se a refletir. Fez de si uma epifania ambulante. Tornou-se uma curiosidade só. Quis saber mais das coisas. Num movimento sinuoso, transmutou-se numa dolorosa interrogação. Com dificuldade, arredondou o esqueleto no bambolear de uma dança sem música e começou a ver finalmente o que jamais vira. O próprio umbigo. Num gesto de humildade e autognose, cabeça baixa, fez uma reverência à sua natureza mais selvagem. E viu a perfeição que é nunca estar pronto.

Pergunta vai, pergunta vem; ficou introspectivo o ponto. Pôs-se a folhear as páginas amarelas de seu cotidiano comum. E não é que leu histórias tantas e diversas que numa aljôfara lacrimosa se compreendeu como uma parte valorosa do todo?

Depois do redemoinho inquisitório, percebeu que tinha que entender o propósito de ser e de estar nesta geografia do mundo. E foi num espanto que se esticou tanto que virou um ponto de exclamação. De tudo, se admirava! Ora agradecia, ora se exaltava. Era sorriso honesto. Era pranto. Se de emoção em emoção passeava, era sempre por inteiro. Verdade em palavra. Leal em ação.

E não é que cansa ser todo sentimento e exclamação! Estressado de tamanha intensidade e por vezes incompreendido, recolheu-se. E minguando pouco a pouco, voltou ao ponto inicial. Até pensou estar tudo acabado. Mas, já não era o mesmo do início. Experiente e calejado, sacou que começava um novo ciclo.

E entendeu. Não era ponto final. Era reticências. A vida, antes que acabe, sempre continua.

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