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Negrinha em 2022: OVALE testa reação de pessoas a locução do conto histórico de Lobato

Um dos contos mais famosos do escritor taubateano Monteiro Lobato, 'Negrinha' foi lançado em 1920, em livro homônimo. OVALE testou a reação de cinco pessoas ao ouvir a narração da história, que fala de uma criança órfã, filha de uma ex-escrava

Xandu Alves
13/05/2022 às 20:03.
Atualizado em 14/05/2022 às 09:39

O texto choca pela rudeza das palavras: “Preta?? Não. Fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”.

Trata-se da abertura de “Negrinha”, conto do escritor taubateano Monteiro Lobato (1882-1948) lançado em 1920 num livro homônimo.

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O texto descreve a vida de uma criança órfã, filha de uma ex-escrava, e assusta pelo grau de racismo contido em suas entranhas.

OVALE convidou cinco pessoas, quatro delas de ascendência negra, a ouvir uma narração do conto e acompanhou a reação delas às palavras de Lobato.

No início, a feição dos ouvintes é de estranheza e assombro diante da descrição selvagem da pequena negra órfã, que vivia seus primeiros anos de vida escondida “pelos cantos escuros da cozinha, sobre farrapos de esteira e panos imundos”, porque a “patroa não gostava de crianças”.

“Como descendente de escravos, me senti tocada por saber que provavelmente alguns dos meus antepassados passaram por situação semelhante e até pior do que a relatada pelo conto”, disse Aline Peixoto. “Minha história se entrelaça com a de negrinha, tristemente, por saber que no Brasil e outros países as pessoas eram e ainda são tratadas diferentemente por conta da sua cor de pele”.

Greyce Castro contou que pensou na filha tratada da mesma forma: “Os apelidos pejorativos, a forma como era tratada, me deu um sentimento de raiva, desespero e agonia. Muito triste e revoltante”.

Para Felipe Zacarias, as pessoas acham que não tem preconceito, de que não existe o problema e que está tudo bem. “Não está”, ele disse. “Todos nós precisamos melhorar sobre o preconceito, mesmo pertencendo àquela classe social afetada por isso”.

Monteiro Lobato (Divulgação)

Com lágrima nos olhos, Samai Jovino apontou o conto como impactante: “Imaginar uma criança vista como não humana, que nunca tinha visto uma boneca, é muito forte. Não tem como não sofrer com ela”.

Mais jovem do grupo, Samuel Trindade disse que o conto é um “retrato de uma história que ocorreu muito antigamente, e que era comum”.

Para Aline, a obra não é racista: “Poderia ter sido escrito na semana passada, com outra linguagem e contexto. De forma mais velada e repaginada, vemos essas situações acontecendo no dia a dia”.

Cada um à sua maneira, o conto emocionou os cinco ouvintes. E ainda que duro e abertamente racista, Greyce diz que não deve ser cancelado: “Nos faz refletir”.

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