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Vale foi região mais resistente à abolição da escravatura no Brasil, diz historiadora da Univap

Após 134 anos da Lei Áurea, a escravidão ecoa em nossos dias por meio do racismo estrutural, aponta a historiadora Maria Aparecida Papali; ela diz que o Vale foi a região do país mais avessa à abolição

Xandu Alves
13/05/2022 às 20:10.
Atualizado em 14/05/2022 às 09:39
Escravidão (Divulgação)

Escravidão (Divulgação)

A porção paulista do Vale do Paraíba foi a região com a maior resistência à abolição da escravatura no Brasil, oficializada há 134 anos por meio da Lei Áurea, sancionada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888.

Os donos de escravizados lutaram até o último minuto para evitar a libertação, tentaram ser indenizados e depois usaram a tutela de crianças para uma espécie de ‘reescravização’.

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Tais temas estão no livro “Escravidão e Pós-Abolição no Vale do Paraíba Paulista” (Intermeios), lançado em São José dos Campos neste mês. A obra é organizada pelas historiadoras Maria Aparecida Papali e Valéria Regina Zanetti, docentes da Univap (Universidade do Vale do Paraíba).

“O Vale foi a região mais ferrenhamente escravocrata do país”, disse Papali a OVALE. Confira.

 Qual foi a motivação para o livro?

No Laboratório de Pesquisa e Documentação Histórica da Univap, temos a proposta de trabalhar com a história do Vale do Paraíba. Temos dois eixos de pesquisa: as cidades e o núcleo de pesquisa Pró-Memória São José dos Campos. Esse livro é resultado de um percurso longo do laboratório de projetos que foram sendo aprovados pela Fapesp e pelo Pró-Memória. O livro é uma coletânea e contamos com professores convidados e ex-alunos, que foram nossos bolsistas. Encontramos documentos como ações de liverdade, tutelas sobre órgãos, processos cíveis, uma gama considerável de documentos que foram ao encontro das questões mais pertinentes da escravidão e o pós-abolição no Vale.

 Qual a importância de tocar nesse tema?

Considero importante e venho trabalhando desde o meu mestrado. Depois, quis continuar o tema incluindo mais cidades e documentação. Nesse livro, trabalhamos com várias cidades, como São José, Jacareí, Taubaté e Guaratinguetá. Quanto mais a gente pesquisa, mas se descobre da complexidade do mundo escravista, as relações entre senhores e escravizados.

 Na avaliação da senhora, qual a informação mais importante que o livro traz?

Uma questão é o pós-abolição que trabalhamos principalmente as tutelas, que foram para os filhos das ex-escravas. Havia uma lei na época que dizia que filhos de mães solteiras pobres precisam de um tutor, para que sejam educados e tenham futuro. A lei buscava melhorar a situação de um jovem sem recursos. Só que, no final da escravidão, esses senhores e homens poderosos da região buscaram o filho menor de idade da ex-escrava para tutelar, e as crianças se enquadravam nesse perfil. Mas, ao invés da tutela para a criança ter uma perspectiva, essas crianças foram endereçadas novamente ao trabalho forçado. As meninas para o trabalho doméstico e os meninos para a lavoura. De uma forma legalizada e institucionalizada, funcionou para forçá-los novamente a uma “reescravização”, um trabalho forçado. Não eram enviados à escola e nem aprendiam uma profissão. Muitas mães perceberam o engodo e começam a reivindicar seus filhos de volta. Há situações de abuso sexual e estupro.

 A tutela durou muito tempo?

Ela vai muito forte até 1910 e depois começa a diminuir, mas persiste esporadicamente e não acaba. Ainda temos notícia hoje de pessoas que trabalham na casa de pessoas sem ganhar salário. É considerada pessoa da família, mas não recebe herança. Eram considerados filhos de criação, mas se transformavam em trabalhadores domésticos não remunerados.

 O Vale do Paraíba Paulista foi a região com maior resistência à abolição da escravatura no Brasil?

Sim, no Brasil todo. E o Vale do Paraíba paulista principalmente, a região mais ferrenhamente escravocrata do país.

 Quantos escravos o Vale chegou a ter?

A partir de meados do século 19, aumenta a escravidão no Vale, enquanto começa a diminuir em outros lugares do país. Na década de 1880, há movimento fortíssimo na região de Campinas com a luta dos escravizados, abolicionistas e populares contra a escravidão. Quando acontece o 13 de maio são poucos os que ainda eram escravizados. É complicado quantificar por causa disso. São José tinha poucos escravos, com pequenos proprietários. Outras cidades, como Taubaté, Guaratinguetá e Bananal, tinham grandes planteis, com 800 escravos ou até mais.

Pesquisa. historiadora Maria Aparecida Papali (Divulgação)

Podemos dizer que a pujança econômica do Vale daquela época deveu-se à exploração da mão de obra escrava?

Sem dúvida. O café foi impulsionado pela mão de obra escrava. Uma economia baseada na escravidão. É uma questão que temos herança negativa na nossa sociedade até hoje, o racismo que ainda persiste, a desigualdade social.

 Como ficou a situação dos escravos libertados? Não receberam nenhuma indenização?

Nada disso. Quem estava pleiteando a indenização eram os donos dos escravos. Juridicamente, o escravo era mercadoria. O escravizado não projetava a ideia de coisa, mas juricamente era considerado assim. Os senhores se consideravam lesados pela monarquia, porque não houve o ressarcimento. Não teve política pública de inclusão aos escravizados. Uma das possibilidades de indenização era quando so escravos compravam a sua liberdade por meio da alforria. Muitos faziam isso de comprar a própria liberdade, com dinheiro que obtinham de diversas formas. Mas era algo que os senhores não queriam, e sim a mão de obra.

 E como foi a luta pela abolição aqui no Vale?

Havia vários abolicionistas, como professores e advogados, principalmente. Fizeram parte do movimento abolicionista. Havia pessoas em São José, Caçapava e Jacareí, cidade em que havia um movimento abolicionista naquela época. Não eram muitos, mas havia.

 A cultura foi uma resistência?

Sempre é uma forma de resistência muito forte. Maneira de deixar registrado a sua identidade.

 O que a escravidão nos diz hoje?

É algo que precisa ser discutido nas escolas, na sociedade. É uma triste herança que temos, o racismo estrutural da nossa sociedade, que é racista. Isso foi historicamente construído da própria existência da escravidão durante tantos anos. Precisamos encarar essa realidade. As políticas públicas existentes ainda são pequenas em relação a ter uma igualdade social e racial, uma inclusão de fato. Só seremos realmente uma democracia e teremos cidadania quando conseguirmos acabar com o racismo em nossa sociedade. É uma luta que deveria ser de todos.

 Alguns dizem que há no país mais o preconceito social, contra o pobre, do que o racial. Concorda?

Existe o preconceito de raça, é mais forte. Na década de 1930 começou a se dizer e funcionar como paliativo que o país era uma democracia racial, de que teríamos tido uma escravidão mais abrandada. O que o Brasil não teve foi ódio racial como nos Estados Unidos, onde o confronto é mais aberto. Temos um racismo diferenciado, mas tão nefasto quanto o existente nos EUA. Não existe racismo bom.

 E o que acha daqueles que dizem que falar em racismo é ser apenas politicamente correto?

Por conta de piadinhas e coisas supostamente inocentes é que se contribui para o racismo se perpetuar. Não podemos permitir. Tenho uma atitude dura quanto a isso. É na suposta piadinha que o racismo vai se perpetuando.

 A senhora acha que o atual presidente da República contribuiu para empoderar os racistas?

Regredimos anos em termos de conquistas sociais. Acabamos com a Fundação Palmares. Essas falas do presidente deveriam ser consideradas criminosas em alguns casos, dele, da família e dos adeptos.

 Qual o risco quando se minimiza esse tipo de comportamente?

Os que minimizam pensam igual ao presidente. Acham que é só uma piadinha. Não é bobagem. É muito sério.

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